4 de dezembro de 2014

O Estraga Prazer

Um sábado qualquer, marzinho preguiçoso, água meio quente, ondas de meio metro com séries demoradas e por incrível que pareça, com pouquíssimos surfistas na água. Claro que as condições estavam longe de serem ideais do ponto de vista da qualidade das ondas, mas o ambiente todo era ótimo. Paisagem bonita, tranquilidade, ondas eventuais porém manobráveis, e arrisco até a dizer, que o espírito Aloha de camaradagem e compaixão estivesse presente entre os poucos surfistas que dividiam o outside. No final da queda, praticamente satisfeito e de bem com a vida, esperava tranquilamente há pelo menos uns 15 minutos minha “saideira” em um local onde identifiquei uma vala bem demorada, sempre para a esquerda, que vinha um pouco mais para fora e abrindo bem. Não havia ninguém ao meu lado, os poucos surfistas buscavam outras valas mais no inside e relativamente longe dali. Nesse momento, entraram no mar dois surfistas com gestos agitados e falando alto, destoando um pouco da “vibe” do ambiente, mas até ai, tudo bem, fiquei na minha. Posicionaram-se perto de mim, mas ficaram por ali pegando outras valinhas.
Passaram-se mais uns 10 minutos, até que lá no horizonte despontou uma série bem definida. Batendo o olho de relance, eu já sabia que iria encaixar a onda que eu esperava. Um dos dois surfistas que tinham entrado há pouco, teve a mesma percepção que eu, mas como estava muito mais mal posicionado, começou a remar freneticamente na minha direção como se um tubarão estivesse perseguindo ele. Um pouco antes de passar na minha frente, percebi que o “cara de pau” daria a famosa “voltinha” em mim, e já avisei, “ohh eu!”. Não ouviu, ou fingiu que não ouviu. Como eu estava no pico da onda, apenas remei para pegá-la, e ingenuamente pensei que o mal educado quando me visse remando para pegar a onda desistiria da sua tentativa de assalta-la de mim. Doce ilusão. Dropei na frente dele, sem olhar para o descarado, cavei e somente quando estava começando o movimento para executar a rasgada de backside, percebo que o indivíduo não só não tinha desistido, como estava bem embaixo de mim, na onda. Para evitar a colisão, interrompi a manobra no meio e sai por cima da onda, da minha onda, da melhor onda do dia, da onda que eu esperava pacientemente para sair do mar totalmente satisfeito.

Fiquei “emputecido”, o sangue subiu na cabeça não por perder a onda, mas pela falta de respeito e de educação do “espertinho”. Parei onde eu estava, e observei ele dar 3 manobras até o inside, e respirei profundamente diversas vezes para tentar manter a compostura. Quando ele estava remando de volta ao outside, o amigo dele, sacando toda a cena, remou para perto de mim, talvez para me intimidar. Esperei ele passar por mim, e perguntei calmamente: “você acha certo o que você fez?” A resposta dele totalmente esdrúxula e sem nexo, argumentava que ele que dropou no pico e misturava frases sem sentido, como “não sou surfista de um dia só” e outras coisas desconexas. Fiquei com a clara sensação de que além da falta de educação e desrespeito, o meliante achava que ele estava certo, que por algum motivo incompreensível, ele tinha direito a fazer o que quisesse, sem respeitar nada e a ninguém.

Claro que essa atitude me deixou ainda mais indignado, mas a essa altura, só me restava 2 opções: partir pra cima do cara ou botar o rabo entre as pernas e remar para longe. Após, alguns segundos de reflexão, e sempre adepto pela não violência, optei pela segunda opção. Vociferando minha indignação, remei para o outro lado, esperei por uma onda qualquer e sai do mar de cabeça ainda meio quente. Incrível como aqueles segundos conseguiram estragar o bem estar causado por 2 horas agradáveis ao mar. Passei a tarde inteira pensando se agira bem em “não ter dado uma lição” ao cara, questionando se talvez um bom corretivo não pudesse mudar essa atitude descarada e arrogante do sujeito.

Talvez sim, mas provavelmente não. Desconfio que o problema é mais crônico, talvez uma falha na formação moral e na educação básica do malandro, culpa de seus pais. Ou quem sabe até um problema cultural, espelhando a realidade de se morar em um país onde não há limites e tudo é permitido.

Por Caio Siqueira / Colunista do InnerSport - Aloha!

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